domingo, 4 de outubro de 2026

Bono sobre o “lobo mau alaranjado”

 







“Não é segredo que um mentiroso não vai acreditar em ninguém.”


Na ONE decidimos que precisávamos tentar entrar em contato com o governo Trump. O protagonista nunca vai admitir que está errado e vai insistir duas ou três vezes mais quando for desafiado. E ele controla a narrativa. Como ele faz isso?

Porque ele foi feito para as mídias sociais. Porque só o choque e a indignação que, são sua língua franca, viralizam nas plataformas. Porque ele sabe ser o contador de histórias de novo presente, com seus 280 caracteres e no qual cada história é como um conto de fadas dos irmãos Grimm, onde o monstro está em baixo da cama, atrás da porta ou do outro lado da fronteira. E você não consegue tirar o monstro da cabeça. Nunca entendi a luta livre profissional até que me explicaram que é tudo uma grande brincadeira, que não é de fato uma competição, é tudo encenado. A plateia não é burra; ela simplesmente fica hipnotizada pelo drama, pelos xingamentos e por toda as besteirada que dizem; o sopro que o grande lobo mau alaranjado dá para derrubar outra casa. É tudo uma pantomima — “Olha! Atrás de você!” E o fato de que a pantomima tenha vencido por voto popular é uma conquista ainda mais notável, considerando que Hillary Clinton não passou a vida inteira se preparando para ver a política se tornar um braço da indústria do entretenimento.


Ao acordar com a notícia da vitória de Trump, senti mais náuseas do que choque, mas, como tantos outros, eu já estava começando a entender que Trump não é o problema. É o sintoma. Ele não é o vírus. É o supertransmissor. O vírus, mortal como a peste, é o populismo. Seu verdadeiro hospedeiro é o medo. Com Chuck D, o rapper/intelectual me lembrou quando fizemos uma turnê juntos em 1992:








“Ando pesando por que/ As pessoas vivem com medo/ Da minha cor (ou do meu corte de cabelo/ Não sou eu que estou correndo/ Mas eles me fazem fugir/ Me tratam como se eu tivesse uma arma/ A única coisa que tenho são genes e cromossomos.” 

— Public Enemy, “Fear of a black Planet”


Livro Surrender: 40 músicas, uma história — BONO 

Editora Intrínseca



Aproveito esse espaço para agradecer ao meu dileto e sempre querido amigo GUILHERME OSSAIFF, por ter me emprestado o livro.








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