O original que se mostra espetacular carrega em si a ânsia da expectativa.
Nossa maior dificuldade é construir pensamentos puros através desse emaranhando sem a pretensão de agradar ou despertar atenções, e mais, suportar o vaticínio de um universo de pessoas que adejam por todos estes vórtices sem a devida consciência sobre o que significa a vida além das paredes.
"A liberdade é a fonte da qual fluem todos os significados e valores. É a condição original de toda justificação da existência. O homem que busca justificar sua vida deve desejar a própria liberdade de forma absoluta e acima de tudo. Querer ser moral e querer ser livre são uma e a mesma decisão."
Simone de Beauvoir
Escrever age como um espelho interno revelando ao autor sua capacidade para ser livre. Como toda arte, escrever é um dos mais eficazes exercícios de libertação. Ao pormenorizar no papel uma consideração, invariavelmente o autor volúvel pensa em possíveis leitores. Alguns em especial, determinado grupo ou todos, e então, o fazemos ou não — afinal a gama de levianos é massivamente dominante e eliminar a expectativa é para os raros. Deixamos a ideia original ou ajustamos o enunciado: prevendo ou julgando entender como se comportará a opinião alheia; no entanto, quanto mais próximo do original mantemos a virgindade do esboço, maior é nossa liberdade.
Aqui a dificuldade; para muitos escritores, uma muralha intransponível: escrever para si mesmo. Para tanto, é urgente vencer os maiores obstáculos, que começam com o estado sócio/político universal e, ao apontar as ocorrências e divagações: igualmente se desvencilhar do poderoso empirismo, da cultura, do racionalismo barato, das vontades compradas e tradições de toda ordem. Construir pensamentos puros através desse emaranhando sem a pretensão de agradar ou despertar atenções, e mais, suportar o vaticínio do universo humano que perambula por todos estes vórtices sem a devida consciência sobre o que significa a vida além das paredes.
Nada de novo, nesse mundo de informações, pode realmente se apresentar como original. Se autoproclamar inaugural ou ainda pior, se debruçar sobre a pecha terceira de que se é, é assumir-se um engodo prepotente. Não é mais possível haver originalidade na escrita. Tudo é mais do mesmo, truísmos à revelia, versões da genialidade que ainda nem mesmo foram desenterradas. É possível que tenhamos alguns insights maravilhosos, mas não é do autor. Somos a continuação da pena. Somos instrumentos que manuseiam as penas. E qual é o estado propício para escrever para si mesmo? Somente para nós? Aqui esse estado inexiste; um comportamento de contrição destituído de paixões; e o homem de escrita — e somente ele — que conseguir esse milagre, pode se considerar original, pois ele atingiu o âmago da própria originalidade.
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