sábado, 25 de março de 2017

Do preso ordinário e do livre imaturo




Totalmente dispensável, no entanto, ininteligível ao objeto – justamente por isso. Acorrer ao deslize da observação verbal mais enérgica e hostil, ainda que possivelmente inteligente e mesmo de posse de veladas energias conciliadoras, com o intuito obrigatório de alertar; sofrer-se-á sempre com a truculência do destinatário; daquele que, perturbado por não entender o que avalia; sob o ataque da precocidade, da rapidez cega e armada do raciocínio nervosamente muscular e observada tão somente como agressão propriamente dita, entrega-se - o infundado obsedado - igualmente apenas, ao limite da compreensão. 

Contrariar a liberdade é pré-requisito para continuar preso


082.M cqe

Ressurreição de Deus



Deus já pode ser ressuscitado? - Que Nietzsche me perdoe, mas a dinâmica é o lubrificante do existir e a estática é um istmo arenoso que não se prende jamais ao tempo; e a despeito de ser compreendido: o universo se move ainda que o homem contemporâneo não o faça ou insista no alienar-se em direções diversas. Destarte, passados dois séculos; lição parcialmente compreendida a ferros; era imprescindível que o homem buscasse ressuscitar Deus, quando finalmente: derrotados da megalomania de ser independente e, apossados da sempre urgente, porém obstinadamente contornada ciência humana calcada na experimentada e disponível consciência das Leis Superiores tivesse então - como derradeiro ato -, acionado: à volta, o retornar, agora arejados, ao transcendente. No entanto, há o receio de que Ele lance mão do “Seu” Livre Arbítrio, e prefira o anonimato de seus Multiversos...














De senhores de nada...
...a Senhores do Nada.



Tic-tac – Paulatinamente e sem trégua, espiritualmente enfraquecidos; preferimos nos prender uns aos outros em nichos de dependências oportunamente confiáveis e monetariamente escravacionistas a nos agruparmos inteligentemente e ouvir o som dos nossos corações, quando de posse da sensibilidade calada armazenada, sempre acessível, podemos buscar o contato com os Planos Astrais, substituindo assim as incômodas correntes auto impostas por passos seguros em direção às janelas que nos permitirão acessar todos os universos já existentes. 




081.M cqe  

Chuck Berry






 “If you had to give
 Rock ‘n’ Roll 
another name,
you might call it 
Chuck Berry”


John Lennon





080.M cqe

sábado, 11 de março de 2017

Galgando incógnito


...alguém o fará, e Ele então completou...

“O que vocês sabem;
o que vocês conhecem!
A que nível está seu acesso?
Porque então tenho 
que mostrar-me?”

E lacônico, para não perder o costume, finalizou; 
“um presente para você, adote este mantra”.

“Você me procura,
ou o farei?
O primeiro é que busco.”




078.M cqe


Ah! É isso?













Todos seguimos desencaixados uns dos outros em algum nível, o desafio é continuarmos avançando até atingir a maravilhosa e ainda inacessível mágica da harmonia uníssona.





Contribuição da Minha Sempre Bem Amada


077.M cqe



Analfabetos informados








Regularmente, a avalanche de informações inúteis, fáceis, gratuitas e desencontradas e assustadoramente em expansão, vem formando analfabetos informados. E estes microcosmos, retroalimentadores do absurdo, por sua vez vêm se transformando em propagadores de coisa alguma – aumentando o bolo falaz - e se por ventura, aleatoriamente, virem a se confrontar com alguém mais informado, mostram-se arredios, abespinhados e pessimistas - seres armados. A tudo que lhes é particularmente estranho dizem não concordar ou gostar. Aprenderam ao menos que esta é a maneira mais camuflada de polidez encontrada de não parecer tão despreparados e passar ligeiramente incógnitos ainda que nada dominem com propriedade ou não tenham desenvolvido a sensibilidade de ao menos experimentar o que gratuitamente lhes desagrada ou coisa que o valha.

Essa coisificação banalizada da opinião; se forma nichos de pseudos especialistas na parte volumosa do consumo, obrigatoriamente aparta ainda mais àqueles que se abriram às finesses da vida a reclusos membros de confrarias exclusivíssimas ou pequenos grupos fechados que tendem mais a extinção que à perpetuação saudável. 
















076.M cqe


Ímpeto delicado esse da crítica



Toda crítica é perigosa e pode ser perniciosa, no entanto, invariavelmente, tende a ser especuladora.

A imagem é observada sob a ótica do observador, obviamente. Se este é doente - fisiologicamente afetado -, uma representação doce e angelical será julgada com requintes de violência, sexo e tendenciosa ao nível de sua mente deturpada, por isso toda análise julgadora precisa levar em consideração o analisando; antes de ser apreçada.















075.M cqe



sábado, 4 de março de 2017

Da série; Desti lado















Brindamos à “Saúde!” com álcool ???






Saúde a todos; sempre.

Prost; Salud; Cheers; Nasdrovia; Santé; Salute...



Contribuição da Minha Sempre Bem Amada





Lembranças ao Amigo Armando

074.M cqe,

A-finidade



Não somente a ciência não tem fim; a exploração da arte surpreendentemente nada estanque, ou a filologia, por exemplo, que abre terminações na escrita que dificilmente seguirão para um termo conferem a ambas: propostas de possibilidades infinitas. No entanto a ciência nos parece a mais enroscada de todas, ainda que deva ser lembrada aqui: como a prima abastada (e talvez justamente por isso) entre as três cadeiras. Não é exagero deslindar esta afirmativa observando que ela é prostituída por render mais em curto prazo; quando não se quer a continuidade das experiências por se ter encontrando algum veio rentável no início das escavações – onde a continuidade pode ser tão dispendiosa quanto esclarecer fatos que circunstancialmente não precisam vir à luz.




073.M cqe

Algoritmos




Podemos considerar os algoritmos como uma espécie de atalho. Os verdadeiros estudiosos atravessam toda a existência a encontrar uma pequena passagem – um elo ou “aplicativo” -; a construir uma pequena ponte a beneficiar toda a humanidade subsequente quando essa - já de posse do elo constituído -, não mais terá que sofrer as severidades dispostas aos antepassados.


072.M cqe

“Teia de significados”



(...)

Mas no decorrer de décadas e de séculos a teia de significados se desfia e uma nova teia estende-se em seu lugar. Estudar história significa observar a tecedura e o desfazimento dessa teia e dar-se conta de que o que parece ser o que há de mais importante na vida de alguém em determinado período torna-se para seus descendentes algo totalmente desprovido de significado.

Em 1187 Saladino derrotou os cruzados na batalha de Hattin e conquistou Jerusalém. Em resposta, o papa deu início à Terceira Cruzada com o propósito de recapturar a cidade sagrada. Imagine um jovem nobre inglês chamado John, que deixou sua casa para conter Saladino, John acreditava que suas ações tinham um significado objetivo. Acreditava que, se morresse na cruzada, após a mote sua alma ascenderia ao céu, onde iria usufruir da eterna felicidade celestial. Ele ficaria horrorizado se viesse a saber que a alma e o céu eram apenas histórias inventadas pelos humanos. John acreditava de todo coração que, se chegasse à Terra Santa e algum combatente muçulmano com um grande bigode desferisse um golpe de machado em sua cabeça, sentiria uma dor insuportável, um som agudo nas orelhas, suas pernas ruindo, sua vista escurecendo – e no instante seguinte veria uma luz brilhante à sua volta, ouviria vozes angelicais e harpas melodiosas, e radiantes querubins alados lhe acenariam do outro lado de um magnífico portão dourado.

John tinha uma fé muito forte porque estava enredado numa teia de significado extremamente densa e poderosa. Suas lembranças mais remotas eram as da espada enferrujada de seu avô Henry pendurada no salão principal do castelo. Desde pequeno, John ouvia histórias sobre Henry, que morrera na Segunda Cruzada e que está descansando com os anjos no céu, protegendo John e sua família. Quando menestréis visitavam o castelo, costumavam entoar canções sobre os bravos cruzados que tinham lutado na Terra Santa. John ia à igreja, gostava de olhar os vitrais das janelas. Uma delas mostrava Godofredo de Bulhão montado a cavalo e empalando em sua lança um muçulmano de aparência maligna. Outra mostrava as almas dos pecadores ardendo no inferno. John ouvia atentamente o sermão do sacerdote local, o homem mais instruído que conhecia. Quase todo domingo o sacerdote explicava – com a ajuda de parábolas bem trabalhadas e anedotas hilariantes – que não havia salvação fora da Igreja Católica, que o papa em Roma era o santo padre e que seus comandos deveriam ser sempre obedecidos. Se assassinarmos ou roubarmos, Deus nos enviará ao inferno; mas, se matarmos muçulmanos infiéis, Deus nos dará as boas-vindas no céu.





Um dia, quando John estava para completar dezoito anos, um desgrenhado cavaleiro chegou ao portão do castelo e com voz embargada deu a notícia: Saladino destruíra o exército cruzado em Hattin! Jerusalém havia caído! O papa tinha declarado uma nova cruzada, prometendo salvação eterna àqueles que nela morressem! Por toda parte as pessoas pareciam estar chocadas e preocupadas, mas o rosto de John Iluminou-se com um brilho sobrenatural, e ele proclamou: “Vou combater os infiéis e libertar a Terra Santa!”. Todos fizeram silêncio por um instante, e depois sorrisos e lágrimas surgiram no rosto de seus familiares. Sua mãe enxugou os olhos, enlaçou-o em um grande abraço e lhe disse quanto estava orgulhosa dele. Seu pai deu-lhe um poderoso tapa nas costas e disse: “Se eu ao menos tivesse a sua idade, filho, juntar-me-ia a você. A honra de nossa família está em jogo – tenho certeza de que você não nos desapontará!” Dois de seus amigos anunciaram que iriam também. Mesmo o adversário jurado de John, o barão que vivia do outro lado do rio, fez-lhe uma visita para lhe desejar boa sorte.

Quando John deixou o castelo, aldeões saíram de suas choupanas para lhe dar adeus, e todas as garotas bonitas olhavam emocionadas para o bravo cruzado que partia a fim de combater os infiéis. Depois que zarpou da Inglaterra para percorrer seu caminho atravessando terras estranhas e distantes – Normandia, Provença, Sicília -, a ele se juntaram bandos de cavaleiros estrangeiros, todos com o mesmo destino e a mesma fé.  Quando o exército finalmente desembarcou na Terra Santa e entrou em luta com as hostes de Saladino, John ficou assombrado ao descobrir que até mesmo os malvados sarracenos compartilhavam suas crenças. De fato, eles estavam um pouco confusos, pois pensavam que os cristãos eram os infiéis e que os muçulmanos é que estavam obedecendo às ordem de Deus. Mas também eles aceitavam o princípio básico de que os que lutavam por Deus e por Jerusalém iriam diretamente para o céu quando morressem.

Dessa maneira, fio por fio, a civilização medieval estendeu sua teia de significados, apanhando John e seus contemporâneos como se fossem moscas. Para o jovem, era inconcebível que todas essas histórias fossem apenas invencionices. Talvez seus pais e tios estivessem errados. Mas também os menestréis, e todos os seus amigos, e as garotas da aldeia, o ilustrado sacerdote, o barão do outro lado do rio, o papa em Roma, os cavaleiros provençais e sicilianos, e até os próprios muçulmanos – seria possível que todos eles estivessem alucinando.

E passaram-se os anos. Enquanto historiadores a observam, a teia de significados se desembaraça e outra se estende em seu lugar. Os pais de John marrem, e depois deles todos os seus irmãos e amigos, Em vez de menestréis cantando sobre as cruzadas, a moda em voga é cantar sobre trágicos casos de amor. O castelo da família foi totalmente destruído pelo fogo e, depois de reconstruído, não se vê nenhum traço da espada do avô Henry. As janelas da igreja se despedaçaram durante uma tempestade de inverno e o vidro que substitui o vitral não mais representa Godofredo de Bulhão e os pecadores no inferno; em seu lugar, vê-se o grande triunfo do rei da Inglaterra sobre o rei da França. O sacerdote local já não chama o papa de “nosso santo padre” – agora ele é mencionado como “aquele demônio em Roma”. Na universidade próxima, os estudiosos estudam os manuscritos dos gregos antigos, dissecam cadáver e sussurram atrás de portas fechadas que talvez não exista essa coisa de alma.

E os anos transcorrem sem parar. Onde uma vez houve um castelo, existe hoje um centro comercial. No cinema local está passando Monty Pyton em busca do cálice sagrado pela enésima vez. Numa igreja vazia, um vigário entediado fica satisfeito ao receber dois turistas japoneses. Ele dá uma longa explicação sobre o vitral nas janelas, enquanto seus interlocutores sorriem educadamente, assentindo sem entender nada. Na escadaria no lado de fora, um bando de adolescentes brinca com seus iPhones. Estão assistindo a um remix recém-lançado de “imagine, de John Lennon. “Imagine que não existe céu”. Canta Lennon, “é fácil tentar”. Um gari paquistanês está varrendo a calçada, enquanto um rádio nas proximidades transmite as notícias: a carnificina na Síria continua, e a reunião do conselho de Segurança terminou num impasse. Subitamente abre-se um buraco no espaço, e um misterioso raio de luz ilumina o rosto de um dos adolescentes, que anuncia: “Vou combater os infiéis e libertar a Terra Santa!”.

(...)

No Livro, Homo Deus, p152 – 155
Yuval Noah Harari.























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